Viagem

El presidente Fidel. E as mulas que lhe puxam pelos Rioja

Fidel Amaren

 

Nem toda a gente pode chamar-se Fidel.

É como se o nome definisse alguém muito especial, que se destaca nesta Rioja de adegas tradicionais, vistosas, clássicas, e de algumas das maiores estrelas do vinho espanhol e mundial. Andamos pela Rioja e, claro, marcamos encontro com o amigo Fidel, que nos aparece com seu velhinho Audi A4, preto, vidros abertos, mais quente lá dentro do que cá fora, porque naquele tempo em que perdeu a cabeça e comprou o carro, estava positivamente a borrifar-se para o ar condicionado.

– Já agora Fidel, quando é que trocas de automóvel?

– Não quero saber nada disso.

 

Fidel Amaren

 

Estão uns 35 graus, mas o que o Fidel quer é saber das vinhas e dos vinhos. Fomos visitar a gigante casa Luis Cañas , onde é enólogo e trabalha aqueles vinhos de clássico perfil Rioja, muito tradicionais , emblemáticos da região. Mas a Luis Cañas  comprou um outro projeto, que se chama Amaren, onde o Fidel dá largas à imaginação e à criatividade. Em Amaren, o meu amigo Fidel quer a expressão muito particular de umas cepas bem velhas, que por ali teimam em resistir ao clima agreste da região. E é disso que vamos provar, vinhos de terroir , envelhecidos depois em madeiras de diferentes origens, ou em diferentes volumes de barricas, ou em cubas de cimento ou tonéis, tudo experiências, mas tudo a respeitar o produto, o tão querido Tempranillo, sagrado nestas bandas.

 

As provas são uma sova. Estamos a testar vinhos novos, o que na Rioja é uma espécie de heresia. Os taninos quase que nos ferem a boca. Faltam ainda anos de estágio, nas madeiras e na garrafa, porque um Rioja é coisa sem pressas. Especialmente para o Fidel. O Fidel nasceu por aqui, é homem de raízes ciganas, mas ligado a esta terra. A família sempre teve vinhas e sua menina dos olhos é precisamente uma vinha que foi do seu avô, e que agora recupera, como projeto pessoal, como se fosse o seu maior tesouro. É para lá que vai o dinheiro que lhe daria um carro novo. E é para lá que vamos.

 

Fidel Amaren

 

À chegada, claro, não encontramos nenhum trator ou máquina. O que vemos é uma mula e um arado, a rasgar a vinha velha, uns 80 anos de cepas bojudas cravadas na terra, recuperada da forma mais tradicional possível, sem a ajuda dos arames que vemos por cá.

– Diogo, aqui não entra máquina nenhuma!

A mula não é teimosia. Um vinho também pode ser isto, paixão pura. Também são estes detalhes que puxam por um vinho, e por uma região. Seja numa perspetiva mais grandiosa ou numa dimensão mais pequena, como a do Fidel, na Rioja estamos numa outra categoria de detalhe.

 

Fidel Amaren

 

Voltamos depois à mesa, e o Fidel abre-nos as primeiras garrafas, estas já prontas para o mercado. Foco nos tintos, tudo Tempranillo, o nosso Aragonez, mas um Rioja num perfil diferente, mais fresco. O lado mais clássico destes vinhos vem mais do estágio prolongado na madeira americana, mas o Fidel sabe também preservar-lhe a fruta e guardar-lhe a elegância. Gosto. Estamos na Rioja Alavessa. As montanhas cercam-nos por todos os lados. Por aqui o altímetro no relógio foi sempre dizendo que estamos entre os 600 e os 800 metros! Tudo começa a fazer sentido…

Ao lado do Fidel, nesta região mais fresca e de vinhos tendencialmente mais equilibrados, é onde me sinto em casa. É esta a Rioja que mais me inspira. Obrigado Fidel!

Fidel Amaren