Viagem

Diário de um regresso à Califórnia. Vinhos, terroir e amigos (de Napa a Sonoma)

A ligação é especial. Voltar à Califórnia é muito mais do que atravessar o oceano pelo que, se possível, agarra-se sempre a oportunidade. Por isso, este ano lá voltei eu, para reencontrar amigos e terroirs, e a adegas e vinhos que continuam a revelar-se surpreendentes. Durante sete dias percorremos montanhas, vinhas e castas, sempre com de copo e coração abertos. E a sensação, claro, é a de que voltarei!

 

Dia 1 – Chateau Montelena & Peter Michael: Começar em grande estilo

Começámos por uma referência incontornável de Napa Valley: Chateau Montelena. Foi aqui que tudo mudou com o histórico Chardonnay de 1973, vencedor no famoso Julgamento de Paris, que alterou a percepção do vinho americano perante o mundo. Hoje, continua a ser um projeto familiar cheio de classe. O edifício histórico impõe-se e os jardins mostram o que é o verdadeiro espírito de Napa. Os vinhos honram o passado com nobreza.

À tarde, seguimos para a Peter Michael Winery, já em Knights Valley, no extremo norte. O local é de uma beleza natural rara: vinhas rodeadas por bosques, quase um oásis. A visita foi guiada pelo enólogo Robert Fiori, geólogo de formação, que nos deu uma verdadeira aula sobre a origem vulcânica dos solos — uma consequência direta da erupção do vulcão de Santa Helena. Os vinhos? Precisão absoluta.

Dia 2 – Hanzell Farm: A revelação

Se há descobertas que nos marcam, esta foi uma delas. A Hanzell Farm, nas encostas de Sonoma, foi uma revelação. Com vinhas plantadas nos anos 50, produzidas de forma biológica, os vinhos (sobretudo o Chardonnay e o Pinot Noir) têm uma elegância e finesse raras. Pura expressão do terroir. Entram diretamente para os meus favoritos da Califórnia.

 

Dia 3 – Continuum & Frog’s Leap: O novo espírito de Napa

De volta a Napa para conhecer a Continuum Estate, o novo capítulo da família Mondavi em Pritchard Hill. Tudo aqui é cuidado ao detalhe: cultivo biológico, adega moderna com vistas de cortar a respiração e vinhos que respiram Bordeaux, mas com alma californiana. O 2022 foi um tinto memorável.

À tarde, conhecemos a Frog’s Leap, em Rutherford, uma das poucas adegas não irrigadas de Napa — só isso já merece respeito! Tudo é orgânico, e a conversa com Frank Leeds (viticultor e VP) foi daquelas que nos lembra porque fazemos o que fazemos. Vinhos vibrantes e um Cabernet Franc que me ficou na memória.

 

 

Dia 4 – Three Sticks: Sonoma no coração

Há projetos que nos tocam mais do que outros, e o Three Sticks é um deles. Proprietários de vinhas icónicas como DurellGap’s Crown e Walala, têm também três vinhas monopole com uma identidade fortíssima. Visitámos vinhas, adega, fizemos barrel tasting e terminámos na lindíssima Vallejo–Casteñada Adobe, no centro de Sonoma. No coração ficaram o Gap’s Crown Pinot Noir e o Alana Chardonnay. Amor verdadeiro.

 

Dia 5 – Knights Bridge & Hudson Ranch: Contrastes perfeitos

De manhã, voltámos a Knights Valley para visitar a Knights Bridge Vineyard, um projeto moderno, bem integrado na paisagem. O enólogo Derek Baljeu guiou-nos por barricas e garrafas, com grande entusiasmo. Chardonnays tensos, Cabernets sedosos — um trabalho excecional.

À tarde, descemos até Carneros, já junto à Baía de São Francisco, onde visitámos a Hudson Ranch. Uma quinta viva, com várias culturas mas onde as vinhas brilham. A prova com o enólogo Andrew Holve revelou vinhos com o perfil clássico de Napa: intensos, estruturados, inesquecíveis.

Dia 6 – Arista & Williams Selyem: Russian River em detalhe

Dia inteiramente dedicado ao Russian River Valley. Começámos na Arista, uma adega boutique com vinhos feitos com precisão e respeito pelo terroir. O enólogo Matt Courtney está focado em tirar o máximo de cada vinha — e nota-se.

De tarde, visita especial à Williams Selyem com o meu amigo Jeff Mangahas. A prova de barricas com ele é sempre um privilégio. As diferenças entre vinhas são gritantes e o trabalho técnico é brilhante. A surpresa? Um Cabernet Sauvignon da mítica To Kalon Vineyard. Monumental.

Dia 7 – Cambria & Raj Parr: Vinhos com alma

Descemos até Cambria, na costa, para conhecer um dos nomes mais respeitados do vinho nos EUA: Raj Parr. Ex-sommelier, hoje totalmente dedicado ao cultivo. Tudo biológico, em solos argilo-calcários, com forte influência do Pacífico. As vinhas têm alma, os vinhos ainda mais. Raj é um verdadeiro winegrower — inspiração pura.

 

Extras da viagem – NBA, MLB e alta gastronomia

Porque nem tudo são vinhos: aproveitei para ver um jogo dos playoffs da NBAGolden State Warriors contra os Minnesota Timberwolves — Curry contra Anthony Edwards, duelo de gerações. Que jogo! Ainda houve tempo para um clássico da Major League Baseball, para ver cos San Francisco Giants, mas desta vez mais pela festa e pelos hotdogs.

Em termos gastronómicos, dois momentos altos a destacar :

 

Saison – A cozinha do fogo e da essência

No coração de São Francisco, o Saison é muito mais do que um restaurante com estrela Michelin. É um santuário do fogo, da precisão e do respeito absoluto pelo ingrediente. A cozinha aberta, centrada numa enorme grelha a lenha, permite uma ligação direta entre os comensais e o gesto de cozinhar — cru, ancestral, instintivo.

O chef Richard Lee é um verdadeiro artista. Conduz a experiência com uma linguagem culinária precisa, elegante e profundamente sensorial. A refeição foi uma sequência de sabores puros e memoráveis: o salmão selvagem, o atum e o ouriço-do-mar, apresentados em preparações minimalistas, revelaram toda a expressão do mar. Puro sabor. Na carne, o veado — delicado, preciso, de uma pureza comovente.

O serviço de vinhos foi irrepreensível, com a Daniele Palombi a brilhar na sala. Recém-chegada de uma visita a Portugal, partilhou com entusiasmo a sua admiração pelos nossos vinhos — um orgulho ouvir o nome de produtores nacionais numa sala tão prestigiada.

Mais do que uma refeição, o Saison oferece uma viagem à essência da cozinha. Fica a vontade de voltar — com tempo, com atenção, com apetite.

 

Lazy Bear – Alta cozinha com alma e sentido de comunidade

Em São Francisco, o Lazy Bear é um caso raro de informalidade e excelência em perfeita sintonia. A experiência começou da melhor forma possível: Jacob Brown, o grande sommelier da casa, fez questão de nos receber pessoalmente e levou-nos diretamente à impressionante garrafeira do restaurante — um verdadeiro tesouro. Ali mesmo, entre grandes garrafas e histórias, abriu-nos um Champagne inesquecível. Impossível começar melhor.

A cozinha é criativa, técnica e cheia de alma. Mas o que mais me marcou foi a pureza dos vegetais. Nunca tinha provado vegetais com tanto sabor, tanta identidade, tanta verdade. Cada preparação revelava um respeito absoluto pelo produto e uma capacidade rara de o elevar sem o desvirtuar. Uma lição de como a simplicidade, quando bem feita, pode ser profundamente comovente.

O serviço é próximo, quase cúmplice, e isso reforça a sensação de partilha e entusiasmo que se vive à mesa. A carta de vinhos é eclética e inteligente, com opções arrojadas a par de grandes clássicos — sempre com a curadoria de Jacob, que brilha com conhecimento, sensibilidade e presença.

O Lazy Bear é um restaurante que combina a técnica da alta cozinha com o espírito caloroso de um jantar especial entre amigos. Uma das melhores experiências gastronómicas de sempre. Uma noite difícil de esquecer.

 

Fim da viagem, coração cheio

Esta viagem foi um reencontro com amigos, com paisagens que me inspiram e com vinhos que me desafiam. A Califórnia continua a ser um lugar feliz. E sempre que posso, volto. Porque há sítios assim: que nos fazem sentir em casa mesmo a milhares de quilómetros.